02/11/2009

Redação

"A uma turma de alunos do segundo grau, com cerca de quinze anos de idade em média, foram explicadas as muitas formas de preconceito e a distinção entre o que é formalizado e o assumido e o sutil e disfarçado, como no Brasil. O professor propôs uma experiência a cerca de dez voluntários. Consistia em se atar uma fita de cor laranja na testa dos alunos e mantê-la em diferentes ambientes, sem que se esclarecesse sua razão. O resultado da experiência foi, literalmente, aterrador, mas uma oportunidade excelente para que possamos refletir sobre nossa educação, valores e sobre o roteiro que estamos imprimindo à nossa juventude.
Desnecessário seria afirmar que esses jovens, por usar uma fita inocente, sofreram todo o tipo de rejeição imaginável. Desde singelos apelos de professores para que a tirassem em nome de uma uniformidade disciplinar, até pais que se rebelaram com o pedido para que esperassem uma semana para conhecer a razão do gesto insólito. Uma semana depois os alunos puderam tirar as fitas da testa, revelar os objetivos do experimento e relatar de forma minuciosa toda a segregação sofrida e toda a violência que o seu gesto causou. Mas, além do fato circunscrito, fica a grande indagação: os jovens puderam tirar a fita que os fazia “diferentes”, mas os negros, os índios, os favelados, os velhos e outros tantos jamais poderão tirar o estigma que os distingue e a marca que os faz sofrer. De repente, ser diferente deixa de refletir características de individualidade para se transformar em rótulos intolerados que buscamos extirpar.
Um homem é um homem, independentemente da cor de sua pele, da sua idade, conta bancária ou fita na testa?
"

Celson Antunes


Foi baseado e influenciado por esse texto que no período de dezenove a vinte e seis de outubro, me aventurei com uma fita verde na testa (obviamente não arranjei uma fita laranja). Me vonlutariei solitariamente a ser cobaia desse experimento, e pra falar a verdade não foi nada bom. Sei o que você pensa, porque também era o que pensava sobre uma fitinha na testa que não me traria problemas e vergonha alguma. Mas sem poder tirá-la por uma semana inteira, passei por situações constrangedoras onde me senti o sujeito mais estanho com a testa verde.

Confesso eu que ocorreram três situações nos sete dias de fita em que fui um frouxo parlapatão e tirei a fita da testa para não passar vergonha. A primeira ocorreu no elevador do meu prédio, ao lado da minha antiga amiga Bruna Soares, que já reside por aqui há umas duas semanas e eu só fui saber agora! A segunda aconteceu quarta feira, quando eu passava em frente ao Olho Sozinho (Colégio Único). Não consegui ser um ponto azul com a testa verde no meio daquelas centenas de pontos pretos. A terceira situação se sucedeu no aniversário da minha tia Dorila sábado à noite. Jantei na Casa do Peixe com a minha família, depois me encontrei com uns “mano” que estavam lanchando e durante todo esse tempo minha testa não foi verde!

Todavia, essas três situações não me livraram de uma semana sofrida. O preconceito realmente existe dentro de uma pessoa quando ela te olha e te julga “diferente” por causa de uma fita na testa. Não foi fácil pra eu sair na rua, ou ir à padaria, ir ao colégio, tendo de reparar em todos os estranhos que me olhavam e todos os conhecidos que vinham perguntar: que porra é essa?

De repente, ser diferente deixa de refletir características de individualidade para se transformar em rótulos intolerados que buscamos extirpar.

18/10/2009

Indicador

Pra nós nunca bastou sermos quem somos, ver o que é, e compreender o que os outros são. Pra nós nunca foi o bastante viver com quem é apenas o que é. E para os outros, nós nunca fomos o bastante. Pra nós nunca foi o suficiente a verdade, e ela nunca será. Nunca será o suficiente apenas ouvir e não só falar. Pra nós nunca vai ser satisfatório termos só quem temos, ou estarmos só com quem nos quer. Afinal nunca foi, e nunca será o bastante ter tudo o que temos de bom. Sempre vamos precisar apontar o dedo. Cada um pra um lado!



03/10/2009

Trocados

Era uma noite fria de Julho. Não tão fria pra quem já nasceu no Rio de Janeiro, mas fazia Divino usar duas blusas por baixo de um casaco. Ele que veio do interior, viveu se acostumando com o calor do sol no dia, e às noites abafadas. E apesar de hoje estar morando no “Rio 40 graus”, não se dá muito bem com as noites frias do inverno na cidade grande.

Divino passou pra faculdade de direito no Rio de Janeiro, e estuda junto com um dos seus antigos amigos da escola. Hícaro, um menino muito bom, inteligente, mas não tão aplicado como Divino. Naquela noite os dois voltavam de uma cansativa aula, e se alegravam em saber que só precisariam andar poucas ruas para chegarem em casa. Conseguiram, com muita sorte, um bom apartamento perto da universidade. Isso facilitava muito a vida de Divino e Hícaro, que eram sempre pontuais nas aulas.

Voltando juntos para casa, já bem tarde da noite, na esquina da última rua, havia um velho deitado na calçada, magro, barbudo e com uma voz fina que dizia:

- Ô meus queridos, vocês não poderiam me dar uma ajudinha pra eu comprar um pão...

Os dois olhavam parados para o mendigo que estendia a mão pra eles. Divino ficou indeciso por um segundo, ele tinha alguns trocados na carteira, mas não sabia se queria dar seu dinheiro pra um sujeito que provavelmente vai usar para comprar bebida, e não pão. Hícaro começou então, pouco a pouco empurrar Divino, querendo forçar ele a passar direto sem dar atenção ao mendigo.

- Só uns trocadinhos pra eu comer... – O velho continuava com a mão estendida.

Divino deu um tapa no seu amigo e se abaixou para conversar com o mendigo:

- O senhor vai mesmo comprar pão, se eu te der um dinheiro?

- Claro meu jovem, vou bem alí, amanha cedo, comprar um pão...

Ele apontava para uma um bar, onde estavam uns aposentados barrigudos, virando algumas latas de bebida.

- Mas aquilo é um bar, não vende pão ali senhor. Olha, tem uma padaria na esquina da rua aqui de trás, se eu te der alguns trocados, o senhor promete que vai guardar esse dinheiro para comprar pão amanhã.

- Ô, mas é claro meu jovem!

Divino então tirou uns dois ou três reais da carteira e entregou ao mendigo, que abriu um grande sorriso segurando o dinheiro, e disse:

- Ô meu jovem, que Deus o abençoe!

Divino sorriu, levantou e continuou andando.

Durante aquele pequeno trajeto, de onde estavam com o mendigo, até a casa deles, Hícaro não parava de falar no ouvido de Divino, dizendo que foi burrice ter dado o dinheiro pro velho, que ele com certeza estava mentindo, e que com certeza iria comprar bebida com aquele dinheiro. Mas Divino não se sentiu mal pelo que fez, com uma sábia serenidade, virou-se para Hícaro e disse:

- O dinheiro que eu dei, é para comprar pão. Mas a partir do momento em que o dinheiro não é mais meu, a forma com que ele é usado não é problema meu, Hícaro. Mas o dinheiro que eu dei, foi pra comprar pão!

Logo quando chegaram em casa, Hícaro foi até a janela, colocou comida na gaiola do passarinho, e sem intenção nenhuma olhou para a rua. Naquele exato momento, Hícaro viu o mendigo, do outro lado da rua, com o dinheiro de Divino na mão, entregando-o ao balconista do bar, em troca de uma lata de cerveja!

13/09/2009

Amor e outros males

Uma delicada leitora me escreve: não gostou de uma crônica minha de outro dia, sobre dois amantes que se mataram. Pouca gente ou ninguém gostou dessa crônica; paciência. Mas o que a leitora estranha é que o cronista “qualifique o amor, o principal sentimento da humanidade, de coisa tão incômoda”. E diz mais: “Não é possível que o senhor não ame, e que, amando, julgue um sentimento de tal grandeza incômodo”.

Não, minha senhora, não amo ninguém; o coração está velho e cansado. Mas a lembrança que tenho de meu último amor, anos atrás, foi exatamente isso que me inspirou esse vulgar adjetivo – “incômodo”. Na época eu usaria talvez adjetivo mais bonito, pois o amor, ainda que infeliz, era grande; mês é uma das tristes coisas desta vida sentir que um grande amor pode deixar apensa uma lembrança mesquinha; daquele ficou apensa esse adjetivo, que a aborreceu.

Não sei se vale a pena lhe contar que a minha amada era linda; não, não a descreverei, porque só de revê-la em pensamento alguma coisa dói dentro de mim. Era linda, inteligente, pura e sensível – e não me tinha, nem de longe, amor algum; apenas uma leve amizade, igual a muitas outras e inferior a várias.

A história acaba aqui; é, como vê, uma história terrivelmente sem graça, e que eu poderia ter contado em uma só frase. Mas o pior é que não foi curta. Durou, doeu e – perdoe, minha delicada leitora – incomodou. Eu andava pela rua e sua lembrança era uma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era uma gravata que em enforcava devagar, suspensa de uma nuvem. A senhora acharia exagero se eu lhe dissesse que aquele amor era uma cruz que eu carregava o dia inteiro e à qual eu dormia pregado; então serei mais modesto e mais prosaico dizendo que era como um mau jeito no pescoço que de vez em quando doía como bursite. Eu já tive um mês de bursite, minha senhora; dói de se dar guinchos, de se ter vontade de saltar pela janela. Pois que venha outra bursite, mas não volte nunca um amor como aquele. Bursite é uma dor burra, que dói, dói mesmo, e vai doendo; a dor do amor tem de repente uma doçura, um instante de sonho que mesmo sabendo que não se tem esperança alguma a gente fica sonhando, como um menino bobo que vai andando distraído e de repente dá uma topada numa pedra. E a angústia lenta de quem parece que está morrendo afogado no ar, e o humilde sentimento de ridículo e de impotência, e o desânimo que às vezes invade o corpo e a alma, e a “vontade de chorar e de morrer”, de que fala o samba?

Por favor, minha delicada leitora; se, pelo que escrevo, me tem alguma estima, por favor: me deseje uma boa bursite.

Rubem Braga

04/09/2009

Smile for me, smile (8)

Sempre gostei de ver as coisas de uma forma simples e tranqüila. Quem me conhece sabe como sempre fui um cara tranqüilo e como sempre levei a vida na base do positivismo. Ver o lado bom daquilo que até às vezes parece não ter nada de bom. Viver na felicidade e mesmo quando estou sofrendo, abrir um sorriso nem que seja um daqueles bem fracos de ladinho. As pessoas estão sempre agitadas, de um lado pro outro com seus afazeres contínuos. Correndo contra o tempo para conseguirem cumprir suas tarefas. E muitas se esquecem das coisas simples que podem mudar o seu dia a dia, como um sorriso, ou um abraço, ou até mesmo um rápido tapinha no ombro!

Devemos nos alegrar perto da nossa família, dos nossos amigos e principalmente do nosso Deus, porque Ele se alegra conosco quando estamos felizes. Deus sabe do sofrimento de cada pessoa, e compreende cada sofrimento, mas Seu coração amoroso vai sempre querer nossa felicidade! Está escrito em Lamentações 3.31-32: O Senhor não nos deixará sofrer para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias. Problemas existem! E eles são muitos, e são dolorosos. Mas nosso Deus é maior é sempre na sua presença, devemos nos alegrar e sorrir reciprocamente.

A felicidade verdadeira não existe fora de um relacionamento saudável com Deus. Apesar de às vezes cairmos em muitas ilusões que se parecem com algo que nos trará felicidade e alegria. Algo que buscamos a fim de encontrar a felicidade que aliviará o estresse que é a vida. Independente de qualquer coisa, o sofrimento pessoal é inevitável para todos, apenas precisamos aprender a sofrer, porque evitar é o mesmo que dar banho em porco!

Passamos por uma vida onde crescemos por dentro e por fora, alguns só por fora, outros só por dentro. Passamos por “ilusões amorosas”, sofremos um pouco por elas. Brigamos com nossos amigos, depois nos entendemos com eles novamente. Traímos os mesmos amigos, depois nos arrependemos disso, ou não! Montamos uma árvore que brilha todo final de ano. Sonhamos em ser alguém importante, alguém que tenha um dom notável, como um jogador de futebol, ou um cantor, ator. Vivemos em meio a uma confusão particular, e também em meio a uma confusão social. E durante toda essa jornada, seria uma fatalidade não nos alegrarmos, não vivermos momentos felizes e sorridentes, e não demonstrarmos essa felicidade aos outros, e nos alegrarmos com a felicidade dos outros!


Sorria, embora seu coração esteja doendo. Sorria, mesmo que ele esteja partido.
Smile – Charles Chaplin

28/08/2009

Teclas Teclas

É frustrante estar de frente pra tela do Microsoft Word e não ter o que escrever! Aquele velho papo de não ter assunto pra colocar em um texto, e aqui estou eu mais uma vez, (puto) sem criatividade pra um texto. Ultimamente tem sido assim, algumas vezes tenho um tema pra escrever sobre, mas não consigo formular nada no papel, algumas outras vezes consigo formular um texto pra passar pro papel, mas sem um tema, um texto sem pé nem cabeça. Aliás, faltam poucos dias pro Cabeça tirar aquele gesso fresco do pé, vou mandar um salve então pro Cabeça da Xurupita! Mas como eu ia dizendo, algumas vezes fico preocupado com o que as pessoas vão achar ou concluir dos meus textos, como foi esse último: Velhos de Igreja. Muitas pessoas depois de lerem, pensaram que eu estava bravo com o Elvino, mas não foi nada disso. A forma como introduzi o texto era pra ser levada na brincadeira, mas não foi o que rolou! E aproveitando quero deixar bem claro que nada daquilo que eu escrevi era sério. Elvino é um cara super gente fina, miguxo do meu coree, e eu não teria motivos pra ficar chateado com ele, e nem pra postar esse motivo num texto do blog! Até porque fui eu mesmo que decidi mudar todo o meu texto que seria publicado no boletim. Logo, vou mandar um salve também pro Elvino da Xurupita!

Começo a achar que esse texto vai acabar sendo um daqueles sem pé nem cabeça, como eu tinha dito. Netto, meu primo, me disse certa vez que eu era bom nisso, bom em escrever coisas “nadaver”. Fiquei sem saber se ele estava me elogiando ou não. Mas eu sempre pensei que era bom em escrever textos mais dramáticos, apesar de não gostar. Toda vez que eu lia esses meus próprios textos, pensava que até estavam fortes demais de tão dramáticos. Como foi o texto que fiz pro Richard, quando ele armou pra cima de mim fingindo estar indo embora pra São Paulo (tsc). Sempre via que meus textos melancólicos, eram realmente muito melancólicos. Eu não gostava nem um pouco disso.

Os parágrafos ficaram grandes, e não me simpatizo com textos longos. É melhor eu concluir alguma coisa desse “nada” que me fez gastar quase uma hora! Bem, eu me perguntaria o que teria de ser concluído em um texto onde não foi falado sobre nada. Mas esse não é o meu caso, porque por mais que tenha sido mal e porcamente, falei aqui sobre meus amigos, apesar de poucos. Afinal, eu não conseguiria falar sobre todos só em um texto. Lindão, Pércio, Gabi, Vitão, Bruno, Nathália, Durock, João Luis, Hendy, não me esqueci desses! Todos eles. Pessoas que fazem minha vida. Pessoas que eu me lembro todos os dias, e agradeço por elas estarem sempre ao meu lado.
É isso ai!

24/08/2009

Velhos de Igreja

Havia sido selecionado pra escrever um texto que seria publicado no boletim da igreja. Mas meu texto foi apontado como pesado demais para aqueles velhos chatos que sentam lá no canto direito do templo. No final escrevi outro texto que será puplicado dia 30 de agosto, no boletim da PIBI. Como protesto, deixo aqui o texto que foi tachado de radical:




A igreja e a religião que ela prega


Por muito tempo o homem vem questionando a relação da igreja com o próprio homem. Nunca houve imparcialidade do homem quando o assunto em questão é: A igreja e a religião que ela prega. O que é verdade, e nem nós cristãos podemos negar, é que muitas das vezes a igreja promove mais sua religião do que seu deus. No nosso caso, nossa igreja ao invés de pregar sobre o Deus que salva, prega sobre o evangelho que salva.


Sem generalizações, não quero dizer que isso acontece em toda igreja batista, ou presbiteriana, ou pentecostal, ou em qualquer outra igreja de crenças diferentes ou não. Mas o homem, e principalmente o cristão, deveria estar convicto de que a igreja não é o fundamental para sua salvação, e geralmente o evangelho que é pregado acima de Deus força o homem a pensar dessa forma. Força o homem a pensar que ele só estará salvo se não faltar a nenhum culto da sua igreja, ou se não faltar a nenhum evento feito pela sua igreja.


Que o homem não precisa da igreja para ser salvo, isso é verdade! Mas a igreja nunca deixou de ser um órgão importante para a obra de Deus. Os cultos prestados domingos e quartas são importantes para o homem e também para Deus. O dinheiro que a igreja arrecada pelo dízimo é sempre importante pra missões em todo o Planeta. E o próprio Deus nos diz sobre o maior valor da igreja em Mateus 18:20: Porque onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. A igreja, que muitas vezes vacila ao pregar mais o evangelho do que Deus, mas é extremamente importante porque é onde estamos em comunhão uns com os outros, adorando ao nosso Senhor.


Deus não é batista. Deus não é evangélico. A religião foi criada pelo homem, não por Deus, por isso ela é falha. Mas apesar disso, nossa espiritualidade com Deus não é falha. Porque Seu amor por nós nunca foi, e nunca será falho. O fundamental para nós, o que Deus quer de nós, não é que freqüentemos uma igreja e pertençamos a uma religião. Termos um bom relacionamento com Deus e com tudo que vem Dele é o fundamental, é o que nosso Pai quer de nós! Particularmente, eu não penso que isso menospreza a função da igreja na Terra. A igreja evangélica nunca vai deixar de ser um órgão necessário para os evangélicos, apesar dos “apesares”.



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Era só ter dito Elvino: Que texto prode! Não vou por essa merda no boletim!