Desnecessário seria afirmar que esses jovens, por usar uma fita inocente, sofreram todo o tipo de rejeição imaginável. Desde singelos apelos de professores para que a tirassem em nome de uma uniformidade disciplinar, até pais que se rebelaram com o pedido para que esperassem uma semana para conhecer a razão do gesto insólito. Uma semana depois os alunos puderam tirar as fitas da testa, revelar os objetivos do experimento e relatar de forma minuciosa toda a segregação sofrida e toda a violência que o seu gesto causou. Mas, além do fato circunscrito, fica a grande indagação: os jovens puderam tirar a fita que os fazia “diferentes”, mas os negros, os índios, os favelados, os velhos e outros tantos jamais poderão tirar o estigma que os distingue e a marca que os faz sofrer. De repente, ser diferente deixa de refletir características de individualidade para se transformar em rótulos intolerados que buscamos extirpar.
Um homem é um homem, independentemente da cor de sua pele, da sua idade, conta bancária ou fita na testa?"
Foi baseado e influenciado por esse texto que no período de dezenove a vinte e seis de outubro, me aventurei com uma fita verde na testa (obviamente não arranjei uma fita laranja). Me vonlutariei solitariamente a ser cobaia desse experimento, e pra falar a verdade não foi nada bom. Sei o que você pensa, porque também era o que pensava sobre uma fitinha na testa que não me traria problemas e vergonha alguma. Mas sem poder tirá-la por uma semana inteira, passei por situações constrangedoras onde me senti o sujeito mais estanho com a testa verde.
Confesso eu que ocorreram três situações nos sete dias de fita em que fui um frouxo parlapatão e tirei a fita da testa para não passar vergonha. A primeira ocorreu no elevador do meu prédio, ao lado da minha antiga amiga Bruna Soares, que já reside por aqui há umas duas semanas e eu só fui saber agora! A segunda aconteceu quarta feira, quando eu passava em frente ao Olho Sozinho (Colégio Único). Não consegui ser um ponto azul com a testa verde no meio daquelas centenas de pontos pretos. A terceira situação se sucedeu no aniversário da minha tia Dorila sábado à noite. Jantei na Casa do Peixe com a minha família, depois me encontrei com uns “mano” que estavam lanchando e durante todo esse tempo minha testa não foi verde!
Todavia, essas três situações não me livraram de uma semana sofrida. O preconceito realmente existe dentro de uma pessoa quando ela te olha e te julga “diferente” por causa de uma fita na testa. Não foi fácil pra eu sair na rua, ou ir à padaria, ir ao colégio, tendo de reparar em todos os estranhos que me olhavam e todos os conhecidos que vinham perguntar: que porra é essa?
De repente, ser diferente deixa de refletir características de individualidade para se transformar em rótulos intolerados que buscamos extirpar.
